Economia

05/05/2018 07:55 BBC Brasil

Com o dólar mais caro fez juros na Argentina subirem a 40% - e qual o risco para o Brasil

O Banco Central da Argentina (BCRA) elevou a taxa de juros três vezes em uma semana para tentar conter os estragos causados pela forte desvalorização do peso argentino. Foram 12,75 pontos percentuais de alta, elevando a taxa de 27,25% a 40% ao ano nesta sexta-feira. Para efeito de comparação, a taxa básica de juros no Brasil, a Selic, está em 6,5% ao ano.

O peso está entre as moedas que mais se desvalorizaram em relação ao dólar neste ano. Até o fim de abril, a moeda argentina havia perdido 10% de seu valor ante a moeda americana. O real também se desvalorizou nesse período, 7,8%, assim como as moedas da maioria dos países emergentes - Rússia e Turquia, por exemplo. 

Assim como a Argentina, o Brasil está vulnerável aos efeitos da alta dos juros americanos sobre o câmbio - tanto que o real também passa por um processo de desvalorização. A situação da economia brasileira, entretanto, é bem diferente da do vizinho.

A inflação brasileira está controlada, o país tem um volume expressivo de reservas internacionais e déficit pequeno em transações correntes (que contabiliza as trocas com o exterior) - cenário que nos deixa menos vulneráveis à mudança no cenário externo que tem aumentado a volatilidade nos emergentes.

"Nesse sentido, os dois países estão em campos opostos", diz Maurício Molan, economista-chefe do Santander.

Os juros americanos e os países emergentes

As oscilações da política monetária americana têm impacto direto sobre as economias menos maduras.

Como os títulos públicos americanos são considerados ativos muito seguros, sempre que os juros sobem - fazendo com que a remuneração desses títulos seja mais alta -, há um estímulo para que o capital saia de mercados mais arriscados, como os emergentes, em direção aos Estados Unidos.

Esse movimento gera uma saída de dólares de países como Argentina e Brasil - fazendo, por sua vez, com que a moeda americana fique mais cara.

Desde a crise financeira de 2008, Estados Unidos e União Europeia vinham mantendo as taxas básicas de juros baixas para tentar estimular a recuperação de suas economias, o aumento de consumo e de investimentos. "Os juros americanos ficaram próximos de zero por quase uma década, uma situação que não tem paralelo na História", ressalta Molan, do Santander.

Os emergentes se beneficiaram desse cenário, que trouxe investimento estrangeiro para o mercado financeiro e para o setor produtivo. O ciclo, contudo, mostra sinais de esgotamento.

Em dezembro de 2015, o Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano) elevou os juros para um intervalo entre 0,25% a 0,5%, a primeira elevação em quase dez anos. Em junho do ano passado, a taxa passou pela primeira vez de 1%, ficando na faixa entre 1% e 1,25%.

No último dia 21 de março, o Comitê de Política Monetária (Fomc) anunciou a mais recente alta, para o intervalo 1,5% a 1,75%. O Santander projeta outras três até o fim deste ano, que levariam a taxa a 2,5% em dezembro.

Por que esse cenário levou a um aumento de juros na Argentina?

Quando o dólar fica mais caro, os preços de produtos importados também aumentam. Isso tende a gerar uma alta generalizada de preços, já que os importados também são usados como matéria-prima pela indústria nacional.

Os economistas têm inclusive um nome para esse impacto: o " pass-through ", o cálculo da transmissão da desvalorização cambial para os índices de preços.

Quando a autoridade monetária aumenta as taxas de juros - e eleva, por consequência, o custo do dinheiro -, desestimula o consumo e tenta suavizar a tendência de aumento da inflação.

A elevação dos juros na Argentina é uma tentativa do governo de conter a forte desvalorização do peso observado nas últimas semanas e evitar que a inflação no país cresça ainda mais.

O caso argentino

A Argentina já vem de um cenário de aumento explosivo da inflação. Desde que o presidente Mauricio Macri tomou posse, em dezembro de 2015, e acabou com o controle cambial instituído em 2011, os índices de preços dispararam.

"Da noite para o dia, o peso saltou de 9 para 16 (por dólar)", lembra Marcos Casarin, economista-chefe para a América Latina da consultoria Oxford Economics. A inflação bateu 41% em 2016, desacelerou a 24,8% no ano passado e voltou a subir, atingindo 25,4% nos 12 meses até março.

A situação piorou entre o fim de 2017 e o início deste ano, diz Casarin, quando o governo anunciou aumento da meta de inflação de 2018, de 10% para 15%, e, pouco tempo depois, cortou a taxa básica de juros. Para analistas, o nível ainda alto da inflação argentina não permitia relaxamento das taxas de juros. "O mercado perdeu a paciência", destaca o economista da Oxford, e as expectativas para os preços saíram do controle.

Depois do aumento dos juros nos EUA no fim de março, o dólar disparou na Argentina e, depois de algumas tentativas fracassadas do Banco Central de conter a alta com instrumentos de intervenção no mercado de câmbio, viu-se obrigado a subir juros.

"Quando o mercado externo piora e você não fez a lição de casa, fica mais vulnerável", pondera o economista.

Alta do dólar no Brasil

Desde o início do ano, o real também perdeu valor em relação ao dólar. Entre janeiro e maio, a cotação da moeda americana passou do patamar de R$ 3,25 por dólar para a faixa R$ 3,50.

"A alta é reflexo da reprecificação de risco no mundo", diz Molan, do Santander, que acredita que a moeda americana permanecerá no nível atual até o fim deste ano.

O impacto negativo da desvalorização cambial sobre a economia brasileira, entretanto, é menor por uma série de razões. A inflação segue em mínima histórica - nos 12 meses até março, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de 2,68% - e o balanço de pagamentos, que contabiliza as transações de um país com o resto do mundo, está equilibrado.

Além disso, o Brasil tem um nível elevado de reservas internacionais e sua dívida não é dolarizada.

"A grande vulnerabilidade do Brasil é fiscal", diz Casarin, referindo-se ao déficit fiscal do governo.

A trajetória de aumento na dívida pública nos últimos anos, caso ganhe fôlego e eventualmente sinalize ao mercado que o Brasil corre risco de não cumprir suas obrigações, pode levar a aumento do risco país e a uma pressão maior no câmbio. Este não é, contudo, o cenário de curto prazo.


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